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O que te aflige - Marcus Aurélius Pois o que lhe aflige? A
maldade dos homens? Rememore em sua mente tais reflexões: que os
seres racionais existem uns para os outros, e que suportarem-se
mutuamente é um dever dos que amam a justiça. Saiba que os homens
incorrem no mal involuntariamente, e considere quantos deles,
após caírem em inimizades, suspeitas e ódios, lutaram uns contra
os outros até que fossem mutilados e reduzidos às cinzas; assim
sendo, trate de aquietar sua mente em relação a isso. Será, no
entanto, que é o destino traçado pelo universo o que lhe
amargura? Rememore este dilema: ou há providência [divina], ou
tudo é regido por átomos [e acaso]; ou ainda, lembre-se dos
argumentos que comprovam que este mundo é uma espécie de
Cidadela, e tente aquietar-se. Quem sabe são as exigências do
corpo que lhe preocupam? Então considere que a mente já não se
mistura com o seu sopro vital, seja em seus movimentos suaves ou
bruscos, tão cedo ela toma consciência de si mesma e de suas
capacidades; e rememore também as lições ouvidas e compreendidas
acerca das dores e dos prazeres, de modo que possa apaziguar tais
temores. Mas talvez seja o desejo daquilo que chamam de fama o
que lhe atormenta? Veja quão cedo tudo o que já passou é
esquecido, e contemple o abismo infinito do tempo em cada lado do
[tempo] presente; considere igualmente a insignificância dos
aplausos, a inconstância de julgamento daqueles que elegem seus
ídolos, e finalmente, o espaço estreito de terra em que vivemos
nossas vidas, e fica em paz. Pois toda a terra não passa de um
ponto, e a parte que nos cabe habitar nela é ainda menor, ínfima,
insignificante. Quão poucos são os homens que vivem neste recanto
do mundo, e quão medianas são as suas qualidades; assim sendo, do
que lhe valeria ter todo o seu aplauso? Tudo considerado, é isto
o que resta: lembre-se de se retirar de tempos em tempos neste
pequeno território dentro de si mesmo, e acima de tudo não se
deixe distrair e não violente sua alma, mas seja livre, e observe
as coisas como um homem, como um ser humano, como um cidadão,
como um mortal. E dentre as verdades para as quais você deve se
voltar em suas meditações, inclusa estas duas: Uma, que as coisas
não são realmente capazes de tocar nossa alma, pois todas elas
existem externamente, e toda a nossa perturbação surge unicamente
da opinião que fazemos delas. A outra, que tudo o que você vê
neste mundo logo se transformará e deixará de existir. Ora,
lembre-se de quantas destas transmutações você mesmo pôde
observar ao longo da vida. Ou seja: o mundo é transmutação; a
vida é nossa opinião acerca delas. O texto acima convida à
reflexão sobre as aflições humanas, abordando diversos aspectos,
desde as relações interpessoais até questões existenciais e a
busca por reconhecimento. Encoraja a aceitação das adversidades,
a compreensão da efemeridade da fama e a contemplação da
brevidade da vida. Propõe a busca da tranquilidade interior,
destacando a importância de se afastar das distrações externas e
manter uma perspectiva serena diante das transformações
inevitáveis do mundo.
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