Agora, agora e mais agora Archiv
23 Episoden
17 Minuten
Os dilemas que se viviam há mil anos são muito semelhantes aos de hoje. É Rui Tavares que o diz em “Agora, agora e mais agora”, o podcast criado durante a pandemia que agora toma a forma de uma colecção de livros. Nela, o autor conta-nos, em conversas, as preocupações de há um milénio, actualizando-as e dando-nos uma nova perspectiva sobre os nossos dias. Neste P24 ouvimos o autor do livro, Rui Tavares.
1 Minute
Este é o epílogo do podcast “Agora, agora e mais agora” — seis memórias do último milénio (um episódio que pode ser acompanhado por figos, de preferência secos, para quem assim o desejar).
Se entre a nossa primeira, segunda e terceira memória há traços de união, uns fios de seda translúcida, quase transparentes, que antes ignorávamos, e se entre a quarta, quinta e sexta memória — as da emancipação, do ódio e da pergunta do destino humano — há traços de união mais fortes e celebrados, corriqueiramente glosados como sendo os que unem iluminismo a modernidade e contemporaneidade — que ligação há entre a primeira, segunda e terceira memória, por um lado, e a quarta, quinta e sexta memória? Haverá um elo perdido entre a primeira e a segunda metade da nossa história?
A haver, o elo perdido teria de ser Espinosa.
“Agora, agora e mais agora” — seis memórias do último milénio é um podcast de história para tempos de quarentena por Rui Tavares.
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Se entre a nossa primeira, segunda e terceira memória há traços de união, uns fios de seda translúcida, quase transparentes, que antes ignorávamos, e se entre a quarta, quinta e sexta memória — as da emancipação, do ódio e da pergunta do destino humano — há traços de união mais fortes e celebrados, corriqueiramente glosados como sendo os que unem iluminismo a modernidade e contemporaneidade — que ligação há entre a primeira, segunda e terceira memória, por um lado, e a quarta, quinta e sexta memória? Haverá um elo perdido entre a primeira e a segunda metade da nossa história?
A haver, o elo perdido teria de ser Espinosa.
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35 Minuten
Esta é a segunda conversa da nossa sexta e última memória, intitulada "A Pergunta", dedicada aos direitos humanos.
As malhas que a ideia dos direitos humanos tece são agora muitas; poderíamos contar uma infinitude de histórias com elas. O rio subterrâneo de que tenho vindo a falar apareceu agora à superfície, mas não julguem que foi num enorme caudal. Os direitos humanos não são, ainda, uma ideia dominante entre as elites políticas e económicas e provavelmente também não entre as massas. A imagem que podemos ter não é a de um enorme estuário de um rio prestes a entrar no mar, mas antes a de inúmeras pequenas correntes num solo seco e crestado, prestes a engoli-las de novo. Ainda assim, à diferença de outras histórias que contámos antes, a ideia de direitos humanos não está agora dependente de apenas uma linhagem. São agora umas centenas, talvez milhares ou, com sorte, milhões de humanos que são capazes de levar essa ideia para a frente.
Agora, agora e mais agora — seis memórias do último milénio, é um podcast de história para tempos de quarentena. Por Rui Tavares.
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As malhas que a ideia dos direitos humanos tece são agora muitas; poderíamos contar uma infinitude de histórias com elas. O rio subterrâneo de que tenho vindo a falar apareceu agora à superfície, mas não julguem que foi num enorme caudal. Os direitos humanos não são, ainda, uma ideia dominante entre as elites políticas e económicas e provavelmente também não entre as massas. A imagem que podemos ter não é a de um enorme estuário de um rio prestes a entrar no mar, mas antes a de inúmeras pequenas correntes num solo seco e crestado, prestes a engoli-las de novo. Ainda assim, à diferença de outras histórias que contámos antes, a ideia de direitos humanos não está agora dependente de apenas uma linhagem. São agora umas centenas, talvez milhares ou, com sorte, milhões de humanos que são capazes de levar essa ideia para a frente.
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41 Minuten
Esta é a primeira conversa da nossa sexta e última memória, dedicada aos Direitos Humanos.
Gaetano Salvemini entra no anfiteatro, encara os seus alunos, esboça talvez um sorriso, e diz: “como estávamos a dizer na nossa última aula”. E continua. Como se não tivesse havido nada. Como se o mundo dentro da sala de aula, a aula de história nem mais nem menos, permitisse pôr um parêntesis à volta de tudo o que tinha acontecido. Ou como se o exilado saboreasse, com aquela travessura, a sua sobrevivência sobre os seus carrascos — vejam a pouca importância que vos dou, faço aqui de conta que não tentaram destruir a minha vida, que não existiram sequer. Ou talvez fosse aquela uma demonstração de resiliência e de coragem. Não nos vergaram, é manter a calma e seguir em frente. Pode ter sido tudo isso.
Agora, agora e mais agora — seis memórias do último milénio, é um podcast de história para tempos de quarentena. Por Rui Tavares.
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33 Minuten
Esta é a quarta conversa da nossa quinta memória, dedicada ao ódio.
O meu problema com Bernard Lazare é que não consigo fazê-lo caber num episódio, nem provavelmente numa memória inteira, nem sequer num livro. Para isso, devo confessá-lo já, o melhor é lerem uma das biografias que lhe foram consagradas, ou por Jean-Cristophe Bredin — que vamos aqui seguir em traços largos — ou por Phillippe Oriol. Mas mesmo depois de tirar uns dias para poder esquecer-me do excesso de leituras sobre ele, para poder resumi-lo ao essencial aqui, eu não consigo pôr Bernard Lazare num só episódio, agora que começamos a aproximar-nos do fim, não tenho outra hipótese senão enfiá-lo mais ou menos à força num episódio apenas.
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O meu problema com Bernard Lazare é que não consigo fazê-lo caber num episódio, nem provavelmente numa memória inteira, nem sequer num livro. Para isso, devo confessá-lo já, o melhor é lerem uma das biografias que lhe foram consagradas, ou por Jean-Cristophe Bredin — que vamos aqui seguir em traços largos — ou por Phillippe Oriol. Mas mesmo depois de tirar uns dias para poder esquecer-me do excesso de leituras sobre ele, para poder resumi-lo ao essencial aqui, eu não consigo pôr Bernard Lazare num só episódio, agora que começamos a aproximar-nos do fim, não tenho outra hipótese senão enfiá-lo mais ou menos à força num episódio apenas.
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23 Minuten
Esta é a segunda conversa da nossa quinta memória, dedicada ao ódio.
Até 1870, a França é um império governado por um Napoleão: o Segundo Império e o Imperador é o Luís Napoleão Bonaparte, Napoleão III Imperador dos franceses e sobrinho do Napoleão Bonaparte. Mas o Império perdeu-se por causa de um telegrama. Em 1870, uma troca de mensagens entre o Embaixador de França e o Rei da Prússia é adulterada pelo Chanceler Bismarck de maneira a parecer que o Rei da Prússia se referira ao embaixador francês de forma humilhante. O episódio, em si insignificante, vai excitar o nacionalismo francês e levar Napoleão III a declarar guerra à Prússia. Grave erro. O que era para ser um momento de glória transformou-se numa catástrofe: a França perde rapidamente a guerra e, com ela, as suas Províncias da Alsácia e da Lorena e, finalmente, o próprio império. Humilhação suprema: é em Versalhes que o Rei da Prússia vai ser coroado imperador do Império Alemão.
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Até 1870, a França é um império governado por um Napoleão: o Segundo Império e o Imperador é o Luís Napoleão Bonaparte, Napoleão III Imperador dos franceses e sobrinho do Napoleão Bonaparte. Mas o Império perdeu-se por causa de um telegrama. Em 1870, uma troca de mensagens entre o Embaixador de França e o Rei da Prússia é adulterada pelo Chanceler Bismarck de maneira a parecer que o Rei da Prússia se referira ao embaixador francês de forma humilhante. O episódio, em si insignificante, vai excitar o nacionalismo francês e levar Napoleão III a declarar guerra à Prússia. Grave erro. O que era para ser um momento de glória transformou-se numa catástrofe: a França perde rapidamente a guerra e, com ela, as suas Províncias da Alsácia e da Lorena e, finalmente, o próprio império. Humilhação suprema: é em Versalhes que o Rei da Prússia vai ser coroado imperador do Império Alemão.
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24 Minuten
Esta é a primeira conversa da nossa quinta memória, dedicada ao ódio.
Léon Daudet era um escritor de algum talento. Mas era um autor que detestava, detestava e detestava. Logo nas primeiras páginas anuncia-se que o autor detesta a democracia. Detesta o parlamento e o parlamentarismo. Detesta a ideia de que a ciência "não tenha pátria nem fronteiras”. Detesta a ideia dos Estados Unidos da Europa (mais sobre isto à frente). Detesta a ideia da igualdade, e a ideia de que “o povo queira igualdade”. Detesta a ideia de que “a democracia seja a paz”. Detesta a ideia de que “a ciência seja boa e que o futuro pertença à ciência”. Detesta a ideia da "instrução laica” e mais ainda a ideia de que “a instrução laica seja a emancipação do povo”. Detesta “a igualdade entre religiões”. Há muitas razões para acreditar que o século XIX tenha sido estúpido, como há muitas razões para encontrar estupidez em todos os séculos da história da humanidade.
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Léon Daudet era um escritor de algum talento. Mas era um autor que detestava, detestava e detestava. Logo nas primeiras páginas anuncia-se que o autor detesta a democracia. Detesta o parlamento e o parlamentarismo. Detesta a ideia de que a ciência "não tenha pátria nem fronteiras”. Detesta a ideia dos Estados Unidos da Europa (mais sobre isto à frente). Detesta a ideia da igualdade, e a ideia de que “o povo queira igualdade”. Detesta a ideia de que “a democracia seja a paz”. Detesta a ideia de que “a ciência seja boa e que o futuro pertença à ciência”. Detesta a ideia da "instrução laica” e mais ainda a ideia de que “a instrução laica seja a emancipação do povo”. Detesta “a igualdade entre religiões”. Há muitas razões para acreditar que o século XIX tenha sido estúpido, como há muitas razões para encontrar estupidez em todos os séculos da história da humanidade.
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23 Minuten
Esta é a quinta conversa da nossa quarta memória, dedicada à emancipação.
No dia 15 de Novembro de 1759 um português pousou a pena com que escrevera em Paris um tratado sobre reformas da educação — tema de actualidade naquele ano, como vimos atrás — a que deu o título de "Cartas sobre a Educação da Mocidade". O homem que escrevia não estava em Portugal, de onde fugira aos 27 anos com medo da Inquisição, e aonde nunca mais voltara. Passou por Londres, onde se converteu brevemente ao judaísmo, religião dos seus antepassados. Foi para a Holanda, onde estudou medicina, e ficou racionalista para o resto da vida. Acabou na Rússia, onde foi médico da czarina Anna Ivanovna. Esteve na Crimeia, onde conviveu com muçulmanos e budistas. Passou pela Prússia a visitar Frederico II. E agora está em Paris, onde tenta sobreviver sem pensão até que Catarina a Grande se lembrará dele e o deixará confortável em rublos até ao fim da vida.
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No dia 15 de Novembro de 1759 um português pousou a pena com que escrevera em Paris um tratado sobre reformas da educação — tema de actualidade naquele ano, como vimos atrás — a que deu o título de "Cartas sobre a Educação da Mocidade". O homem que escrevia não estava em Portugal, de onde fugira aos 27 anos com medo da Inquisição, e aonde nunca mais voltara. Passou por Londres, onde se converteu brevemente ao judaísmo, religião dos seus antepassados. Foi para a Holanda, onde estudou medicina, e ficou racionalista para o resto da vida. Acabou na Rússia, onde foi médico da czarina Anna Ivanovna. Esteve na Crimeia, onde conviveu com muçulmanos e budistas. Passou pela Prússia a visitar Frederico II. E agora está em Paris, onde tenta sobreviver sem pensão até que Catarina a Grande se lembrará dele e o deixará confortável em rublos até ao fim da vida.
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32 Minuten
Esta é a quarta conversa da nossa quarta memória, dedicada à emancipação.
John Stuart Mill é principalmente conhecido como pai do liberalismo clássico do século XIX. Mas antes de o ter sido, foi filho — e afilhado — do utilitarismo iluminista do século XVIII, tendo visto a sua infância sacrificada à mesma organização do tempo que tinha nascido antes com Benjamin Franklin, inspirada numa figura como a de Robinson Crusoe, e que no outro lado do mundo formava mentalidades como a do velho general Bolkonski, aquele que em Guerra e Paz dizia “em verdade vos digo, nunca me aborreci um único dia da minha vida”.
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John Stuart Mill é principalmente conhecido como pai do liberalismo clássico do século XIX. Mas antes de o ter sido, foi filho — e afilhado — do utilitarismo iluminista do século XVIII, tendo visto a sua infância sacrificada à mesma organização do tempo que tinha nascido antes com Benjamin Franklin, inspirada numa figura como a de Robinson Crusoe, e que no outro lado do mundo formava mentalidades como a do velho general Bolkonski, aquele que em Guerra e Paz dizia “em verdade vos digo, nunca me aborreci um único dia da minha vida”.
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29 Minuten
Esta é a terceira conversa da nossa quarta memória, dedicada à emancipação.
Pelos mesmos dias de outubro e novembro de 1755 em que Benjamin Franklin andava por Filadélfia a tentar convencer a assembleia da Pensilvânia a alterar as políticas radicalmente pacifistas do fundador William Penn, ocorria do outro lado do Atlântico um daqueles acontecimentos de que se diz que “mudam o mundo”. Nove em cada dez vezes, não é verdade. Esta é uma das outras.
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Pelos mesmos dias de outubro e novembro de 1755 em que Benjamin Franklin andava por Filadélfia a tentar convencer a assembleia da Pensilvânia a alterar as políticas radicalmente pacifistas do fundador William Penn, ocorria do outro lado do Atlântico um daqueles acontecimentos de que se diz que “mudam o mundo”. Nove em cada dez vezes, não é verdade. Esta é uma das outras.
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36 Minuten
Esta é a quarta conversa da nossa terceira memória, dedicada à globalização.
Fuga sæculi, o ódio sagrado ao mundo, era um sentimento comum a gente religiosa de várias religiões na transição entre a Idade Média e o Renascimento. Neste episódio veremos como Isaac Abravanel, o judeu, abandonou os seus entusiasmos aristotélicos para se dedicar a estudar uma data para o fim do mundo. Outros odeiam o mundo, detestam-no com uma força tal precisamente por ele não ter ainda acabado e para demonstrarem o seu amor maior pela espiritualidade que há-de vir, desprezando a carnalidade, a corporeidade deste mundo desgraçado em que vivemos.
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Fuga sæculi, o ódio sagrado ao mundo, era um sentimento comum a gente religiosa de várias religiões na transição entre a Idade Média e o Renascimento. Neste episódio veremos como Isaac Abravanel, o judeu, abandonou os seus entusiasmos aristotélicos para se dedicar a estudar uma data para o fim do mundo. Outros odeiam o mundo, detestam-no com uma força tal precisamente por ele não ter ainda acabado e para demonstrarem o seu amor maior pela espiritualidade que há-de vir, desprezando a carnalidade, a corporeidade deste mundo desgraçado em que vivemos.
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19 Minuten
Esta é a segunda conversa da nossa terceira memória, dedicada à globalização.
No dia 26 de Janeiro de 1536, o português Damião de Góis, que se encontrava na cidade italiana de Pádua, respondeu a uma carta de Erasmo de Roterdão, que estava em Basileia, na Suíça, e que era o mais célebre autor europeu do seu tempo. Entre novidades sobre amigos, livros, mudanças de casa e saúde — Damião de Góis destruíra, em frustração, o bilhete em que Erasmo lhe enviara comunicando-lhe que estava cada vez mais doente com gota — há algo que Damião sente que tem de dizer ao seu amigo e mentor. Trata-se de falar da morte de Tomás Moro (ou Thomas More, ou ainda Morus, o político e jurista inglês que escrevera "A Utopia") que ocorrera no Verão passado, a 6 de Julho de 1535, através de execução por decapitação.
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No dia 26 de Janeiro de 1536, o português Damião de Góis, que se encontrava na cidade italiana de Pádua, respondeu a uma carta de Erasmo de Roterdão, que estava em Basileia, na Suíça, e que era o mais célebre autor europeu do seu tempo. Entre novidades sobre amigos, livros, mudanças de casa e saúde — Damião de Góis destruíra, em frustração, o bilhete em que Erasmo lhe enviara comunicando-lhe que estava cada vez mais doente com gota — há algo que Damião sente que tem de dizer ao seu amigo e mentor. Trata-se de falar da morte de Tomás Moro (ou Thomas More, ou ainda Morus, o político e jurista inglês que escrevera "A Utopia") que ocorrera no Verão passado, a 6 de Julho de 1535, através de execução por decapitação.
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18 Minuten
Esta é a primeira conversa da nossa terceira memória, dedicada à globalização.
Passaram mais de 200 anos sobre a nossa última conversa. Estamos agora no dia 4 de Abril de 1571, uma quarta-feira no antigo calendário juliano. Damião de Góis tem 69 anos, é guarda-mor da Torre do Tombo, historiador do reino e autor da "Crónica do Felicíssimo Rei Dom Manuel". Vive entre Alenquer, a sua terra natal, e Lisboa.
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Passaram mais de 200 anos sobre a nossa última conversa. Estamos agora no dia 4 de Abril de 1571, uma quarta-feira no antigo calendário juliano. Damião de Góis tem 69 anos, é guarda-mor da Torre do Tombo, historiador do reino e autor da "Crónica do Felicíssimo Rei Dom Manuel". Vive entre Alenquer, a sua terra natal, e Lisboa.
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24 Minuten
Esta é a quinta e última conversa da nossa segunda memória, dedicada à polarização.
Quando Boccaccio se recolheu à vila de Fiesole, nos arredores de Florença, durante a peste de 1348, e teve a sua ideia para o "Decameron" de cem histórias contadas por sete mulheres e três homens que fazem uma quarentena, já era de um exercício de nostalgia que a sua vida literária tratava. Dante morrera uma geração antes, em 1321, no exílio, em Ravena. Boccaccio tinha por ele uma admiração profundíssima. Nós, que conhecemos o título da maior obra de Dante, a “Divina Comédia”, ignoramos na maioria que ela só se chama assim por causa de Boccaccio. Dante chamara ao seu poema apenas a “Comédia”. Foi Boccaccio que lhe acrescentou o adjectivo “Divina” de cada vez que falava ou escrevia sobre ela, de forma que a qualificação acabou por se tornar inseparável do título.
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Quando Boccaccio se recolheu à vila de Fiesole, nos arredores de Florença, durante a peste de 1348, e teve a sua ideia para o "Decameron" de cem histórias contadas por sete mulheres e três homens que fazem uma quarentena, já era de um exercício de nostalgia que a sua vida literária tratava. Dante morrera uma geração antes, em 1321, no exílio, em Ravena. Boccaccio tinha por ele uma admiração profundíssima. Nós, que conhecemos o título da maior obra de Dante, a “Divina Comédia”, ignoramos na maioria que ela só se chama assim por causa de Boccaccio. Dante chamara ao seu poema apenas a “Comédia”. Foi Boccaccio que lhe acrescentou o adjectivo “Divina” de cada vez que falava ou escrevia sobre ela, de forma que a qualificação acabou por se tornar inseparável do título.
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23 Minuten
Esta é segunda conversa da nossa segunda memória, dedicada à polarização.
Entre 500 e 1500 não há praticamente geração que não acredite ser a última, e o mais notável é que quem faz essas previsões não são só profetas loucos ou marginais, mas os mais importantes bispos, teólogos e autores de três religiões, duas delas cada vez mais dominantes desde a Ásia Central até à Europa Ocidental. A crença no fim do mundo para breve, para hoje, para este ano, até para ontem, não é uma maluqueira das franjas da sociedade mas um facto perfeitamente assumido por estas sociedades a partir do topo da sua hierarquia religiosa, num tempo em que a religião se foi tornando o discurso determinante, ou até mesmo o pensamento único.
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Entre 500 e 1500 não há praticamente geração que não acredite ser a última, e o mais notável é que quem faz essas previsões não são só profetas loucos ou marginais, mas os mais importantes bispos, teólogos e autores de três religiões, duas delas cada vez mais dominantes desde a Ásia Central até à Europa Ocidental. A crença no fim do mundo para breve, para hoje, para este ano, até para ontem, não é uma maluqueira das franjas da sociedade mas um facto perfeitamente assumido por estas sociedades a partir do topo da sua hierarquia religiosa, num tempo em que a religião se foi tornando o discurso determinante, ou até mesmo o pensamento único.
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Agora, agora e mais agora
Agora, agora e mais agora é um podcast de histórias da história para tempos de quarentena. Baseado num livro em progresso com o mesmo título, de Rui Tavares, Agora, agora e mais agora percorrerá mil a...